O GRANDE PERGAMINHO DE DIDEROT E O PODER
SUBVERSIVO DA LINGUAGEM
Marcelo Jacques de Moraes - UFRJ/CNPq
A linguagem e a comunicação são temas que retornam incessantemente ao longo do romance Jacques le Fataliste, de Denis Diderot. Como se sabe, a narrativa se constrói em torno de dois eixos principais: o das conversas entre Jacques e seu amo, que relatam suas aventuras um ao outro, e o do texto propriamente dito, que, se está endereçado a um leitor real e, portanto, ausente no momento da escrita, também encena o diálogo, uma vez que o narrador se dirige a um leitor fictício que, por sua vez, freqüentemente lhe toma a palavra.
Visando uma breve reflexão sobre o poder da palavra tal como o concebe Diderot – e sobretudo da palavra encenada, isto é, articulada como diálogo, ou, talvez mais precisamente, como conversa –, tomarei como ponto de partida um trecho do romance. A anedota que se segue é contada por Jacques diante da insistência de seu amo em saber o nome de um personagem de uma história que lhe está sendo contada:
Depois de dizer isso, o valete, aludindo ao personagem a que se referira o amo, continua:
Ao que o narrador interfere com o seguinte comentário:
Se essa incontinência verbal é uma marca do personagem Jacques várias vezes reiterada ao longo do romance – constituindo, portanto, um traço ficcional – creio que ela também reflete uma certa concepção da linguagem, podendo ser um ponto de partida interessante para uma reflexão sobre a função desta sob a ótica de Diderot. A fim de discuti-la um pouco mais adiante, farei alguns breves comentários sobre a figura do philosophe enciclopedista, este incontinente verbal que Diderot, mais do que qualquer outro, encarnou. De fato, a analogia com o alfabeto formulada no romance remete diretamente a essa grande conversa – depois vocês compreenderão melhor porque estou usando esse termo – intitulada Encyclopédie ou dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, imagem maior da pretensão dos iluministas do século XVIII de fazer o inventário do mundo, de reproduzir, numa única obra, todo o saber do homem sobre o universo, de, como diz o próprio Diderot no artigo “Enciclopédia” de sua Encyclopédie, “reunir os conhecimentos espalhados sobre a superfície da terra” [“rassembler les connaissances éparses sur la surface de la terre”]. (Encyclopédie ou dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, tome II. Paris, Flammarion, 1986:40-1)
Ao contrário, porém, de Jacques, que poderia ir “sozinho até o fim do alfabeto” – também voltarei a isso mais adiante – Diderot sabia que um só homem não poderia fazer a Enciclopédia, quando menos pelo volume do conhecimento adquirido pela humanidade. Entretanto, Diderot também sabia que a reunião de especialistas, artistas e homens de letras não garantia uma obra perfeitamente acabada, que restituísse um universo inequívoco, doravante disponível para todos, até porque, no limite, escreve ele, “cada um [dos colaboradores tinha] sua maneira de sentir e de ver” [“chacun a sa manière de sntir et de voir”]:
Mas o que é fundamental notar é que, em 1755, quando redige esse artigo (ele dirige a Enciclopédia desde 1746), Diderot aparentemente já intui que o grande obstáculo a seu trabalho não reside tanto nas diferenças de visão dos colaboradores quanto na própria natureza da linguagem. Em vez de mediar a aproximação de um real supostamente inteligível através do estabelecimento de conceitos e representações estáveis e claramente remissíveis a outros conceitos e representações, a linguagem parece adiar a aquisição de certezas filosóficas ou práticas. Estas, de fato, não cessam de se perder no redemunho dos artigos e das pranchas da Enciclopédia:
O que o leva a concluir que, “de uma Enciclopédia como a [sua], apenas dois terços entrariam numa verdadeira Enciclopédia” [“d’une Encyclopédie telle que la nôtre, il en entrerait à peine les deux tiers dans une véritable Encyclopédie”] (1986:61). O comentário a respeito de um trabalho anterior à Enciclopédia, que seria constituído por partes bem feitas mas que não produziriam um todo – “carvões dispersos que não [formam] um braseiro” [“des charbons épars qui ne formeront jamais un brasier”] (1986:44) – parece, pois, servir para definir seu próprio trabalho.
Assim, Diderot, autor-leitor da Enciclopédia, que interferia diretamente nos textos de seus colaboradores, reescrevendo-os, foi vendo com uma clareza cada vez maior que o que valia para a Enciclopédia valia também para qualquer texto. Como se aos textos-braseiros sempre chegassem novos ventos, soprados por outros leitores-críticos-escritores virtuais e reais, ventos que disseminavam brasas-sentido e faziam do trabalho do philosophe um trabalho assombrado pelo não-senso.
Se a potência da linguagem era uma potência de concentração de sentido – a Enciclopédia é o paradigma por excelência de tal visão: todo o conhecimento, de A a Z, numa única obra – ela se tornava também, aos olhos de Diedrot, uma potência de dispersão de sentido.
Dessa forma, a “verdadeira Enciclopédia”, em última instância, não poderia ser senão um texto por escrever, esse texto que, em Jacques le Fataliste, é encarnado pelo grande metatexto “écrit là-haut”, para retomar o bordão do grand rouleau, de que Jacques se serve para apontar o imponderável do sentido de tudo o que se apresenta, seu eterno estado de devir. Como diz o valete, logo no início do romance:
O que o romance de Diderot parece indicar é que o grand rouleau é o próprio fio do tempo e que a grande ameça ao pensamento consistiria justamente em confundir a fantasia de hoje com uma razão que pairasse acima do tempo e da linguagem (Jacques odeia as redites, as repetições, justamente porque sabe que o sentido que as coisas têm hoje certamente não é o mesmo de amanhã). Ou seja, consistiria em um “escrito que (…) se quisesse completo e definitivo, tal como um grand rouleau inteiramente desenrolado”, para usar uma imagem do crítico Nicolas Rousseau. (Diderot: l’écriture romanesque à l’épreuve du sensible. Paris: Honoré Champion, 1997:195).
Entretanto, é preciso também dizê-lo, a linguagem permanece, para Diderot, essencialmente afirmativa, sendo sempre animada pela possibilidade de constituir sentido e de estabelecer uma comunicação com o outro. Ainda que, como já o pressentimos, seja esse mesmo outro pressuposto pela linguagem que desvirtua a intenção significante e extravia o processo de constituição do sentido, ou melhor, que faz com que este processo persevere numa deriva que, no limite, torna impossível controlar seu rumo ou restituir a rede de determinações que o preside e que supostamente lhe teria dado origem. Não é, pois, por acaso que o romance – como a Enciclopédia – não tem começo nem fim. Ou melhor, tem um começo e um fim que explicitam sua arbitrariedade. As primeiras frases do romance:
bem como os três finais que são oferecidos para que o leitor escolha um deles fazem com que as questões da origem e do destino permaneçam em aberto. Em aberto, digo-o rapidamente, para que o leitor – o outro em questão –, a cada vez, as reconstitua.
Uma carta de Diderot a Sophie Volland (20 outubro de 1760), em que ele discorre sobre a conversa, dá bem a idéia dessa dimensão irredutível do sentido:
Ou seja, o sentido do que se diz não decorre de uma intenção comunicativa interior a um sujeito e anterior ao ato de linguagem, mas se desenha como resposta às solicitações de uma outra voz, que, nos textos de Diderot, mesmo os propriamente filosóficos, manifesta-se dramatugicamente sob a forma do diálogo. Essa teia de linguagem, “conversa indefinidamente prolongada” (MONTIER: 357), arquitetada a várias vozes, e cujo sentido parece sempre estar ainda por vir, encontra sua metáfora por excelência numa frase que Jacques profere inúmeras vezes ao longo do romance:
Entretanto, saber-se mero átomo nesse jogo de forças, nesse inextricável entrelaçamento entre acaso e necessidade, não exime de tomar partido – de lançar os nossos dados e de, a cada vez, como Jacques, dizer o mundo todo, de A a Z. Se Diderot vai constatar que “tudo muda, tudo passa” [“tout passe, tout change”], é para reiterar que “só o todo resta” [“il n’y a que le tout qui reste”] (Cit. par IBRAHIM, Annie. Diderot: forme, difforme, informe. In: IBRAHIM, Annie (org.). Diderot et la question de la forme. Paris, PUF, 1999, p.10)
A ordem da linguagem implica uma escolha, uma intervenção, um corte no movimento de fragmentação da realidade, um esforço de fazer caber o todo da experiência sensível que se tem dessa realidade numa rede de linguagem. Não se pode ler o mundo, como o fazemos todos os dias, sem totalizá-lo, sem contá-lo por um – sem dar-lhe uma inflexão lógica.
Inflexão que, Diderot bem o sabe, a cada presente, supõe uma inadequação dos signos constituídos para expressá-la. Um magnífico exemplo no romance é a conversa em que Jacques e seu amo discutem os termos do acordo que os manteria unidos apesar dos constantes desentendimentos. Para que isso fosse possível, Jacques afirma que deveriam esclarecer a natureza da relação entre ambos. Cito:
Concluímos: ter ou não ter a coisa depende menos do nome do que de uma potência de articulação. Se nem sempre precisamos mudar os nomes das coisas para mudar as coisas, como ensina Jacques, há que haver pelo menos muita conversa. Pois se a linguagem muitas vezes serviu aos homens para selar injustiças, é também através dela, enquanto o exercício humano por excelência, aquele de buscar adequar as palavras às coisas, que se pode minar a ordem estabelecida.
Assim, se Diderot entrevê a impossibilidade de uma linguagem transcender-se a si mesma, seu pensamento não permite compartilhar de uma das conseqüências mais radicais dessa impossibilidade, uma vez que tal perspectiva jamais o leva a desdenhar a potência crítico-reflexiva da linguagem. Ao contrário, o ceticismo de Diderot em relação à linguagem parece levar não a um subjetivismo inescapável, mas à legitimação da palavra do outro como ponto de partida de um diálogo que não cessa de recomeçar. Como filósofo e como crítico, o escritor incorpora a linguagem do outro à sua (nesse sentido a Enciclopédia, em sua forma, permanece emblemática), problematizando-a, ao passo que, como ficcionista – notadamente em Jacques le Fataliste –, encena tal processo de incorporação.
Em outras palavras, ainda que o pensamento de Diderot tenha como pressuposto uma “ligação”[“liaison”] entre os “efeitos” da natureza, isto é, entre os elementos do mundo das coisas que se apresentam a nossa percepção, tal ligação, a cada vez que é entrevista, tem a (in)consistência de uma forma fadada à metamorfose. Recordemos a célebre conclusão dos Éléments de phsysiologie (1774/1781): “O que percebo? Formas? Formas e mais o quê? Formas. Ignoro a coisa. Passamos por entre sombras, sombras nós mesmos para os outros e para nós” [“Qu’aperçois-je? Des formes? Des formes et quoi encore? Des formes. J’ignore la chose. Nous nous promenons entre des ombres, ombres nous-mêmes pour les autres et pour nous”].
– C'est que je n'aurai pas si tôt dit A, qu'ils voudront me faire dire B...
JACQUES: C'était une espèce de nain, bossu, crochu, bègue, borgne, jaloux, paillard, amoureux et peut être aimé de Suzon. C'était le vicaire du village. (Jacques le fataliste et son maître. Paris, Librairie Générale Française, 1972:217)
[3]Jacques ressemblait à l'enfant de la lingère comme deux gouttes d'eau, avec cette différence que, depuis son mal de gorge, on avait de la peine à lui faire dire A, mais une fois en train, il allait de lui-même jusqu'à la fin de l'alphabet. (1972:218)
[4]La preuve en subsiste en cent endroits de cet ouvrage. Ici nous sommes boursoufflés et d’un volume exorbitant; là, maigres, petits, mesquins, secs et décharnés. Dans un endroit, nous ressemblons à des squelettes; dans un autre, nous avons un air hydropique; nous sommes alternativement nains et géants, colosses et pygmées; droits, bien faits et proportionnés; bossus, boiteux et contrefaits. (1986:53-4)
[5] Nous avons vu, à mesure que nous travaillions, la matière s’étendre, la nomenclature s’obscurcir, des substances ramenées sous une multitude de noms différents, les instruments, les machines et les manoeuvres se multiplier sans mesure, et les détours nombreux d’un labyrinthe inextricable se compliquer de plus en plus. Nous avons vu combien il en coûtait pour s’assurer que les mêmes choses étaient les mêmes, et combien, pour s’assurer que d’autres qui paraissaient très différentes n’étaient pas différentes.(1986:58)
[7] Comment s'étaient-ils rencontrés? Par hasard, comme tout le monde. Comment s'appelaient-ils? Que vous importe? D'où venaient-ils? Du lieu le plus prochain. Où allaient-ils? Est-ce que l'on sait où l'on va?(1972:13)
JACQUES: Jacques mène son maître. Nous serons les premiers dont on l'aura dit; mais on le répétera de mille autres qui valent mieux que vous et moi. (1972:175).